A notícia do projeto, dos novos cargos assalariados de Deeqa e Ladan, e do Fundo de Apoio Comunitário, espalhou-se pelo complexo e pelos bairros vizinhos como um incêndio na estação seca. A reação foi uma mistura polarizada de choque, inveja, suspeita e uma esperança brilhante e secreta.
Os Radicais, liderados pelos restantes anciãos rígidos e amplificados pelas queixas amargas de Faduma, estavam furiosos. Viram-no como a derradeira invasão estrangeira, um pagamento direto do Ocidente às suas mulheres para desafiarem os seus maridos e abandonarem as suas tradições. Pregaram contra ele, chamando-lhe "o dinheiro do Diabo" e avisando que qualquer mulher que participasse estava a arriscar a sua alma imortal.
Para os Observadores Silenciosos, no entanto, foi um desenvolvimento de profundo interesse. O dinheiro era uma linguagem que todos compreendiam. O facto de Deeqa estar agora a ganhar um rendimento respeitável e estável pela sua "conversa de mulheres" foi uma mudança de paradigma. O seu desafio não levara à ruína, mas a um estranho novo tipo de prosperidade. Fez com que questionassem tudo.
O primeiro teste oficial do novo poder do Gabinete da Cozinha veio mais cedo do que qualquer um esperava. Veio na forma de uma jovem e aterrorizada mãe chamada Sagal. O seu marido era um Radical, um devoto seguidor dos anciãos mais conservadores. Ele decretara que a sua filha de seis anos, Hibaaq, seria cortada na semana seguinte, da maneira faraónica mais severa. Ele proibira Sagal de falar com Deeqa ou com qualquer uma das "mulheres ocidentais".
Mas Sagal fora uma das ouvintes silenciosas no mercado. Tinha ouvido a história de Farah. Estava aterrorizada com o procedimento. Num ato de coragem desesperada, desafiou o seu marido e foi a casa de Deeqa à noite, o rosto velado, o corpo a tremer.
—Ele não me vai ouvir —soluçou ela, encolhida na cozinha de Deeqa—. Ele diz que é o seu dever religioso. Diz que se eu resistir, ele se divorciará de mim e nunca mais verei os meus filhos. —Ela agarrou as mãos de Deeqa—. Por favor. O vosso fundo. Podem ajudar-me? Podem ajudar-nos a fugir?
As cinco mulheres do comité reuniram-se para a sua primeira reunião oficial. O caso era complexo e perigoso. Dar dinheiro a Sagal para fugir seria uma intervenção direta e agressiva nos assuntos de outra família. Seria visto como um ato de guerra pelos Radicais. Poderia levar à violência.
Ladan defendeu a cautela. —Se fizermos isto, o marido dela vai incitar os outros. Eles podem atacar-nos. Talvez devêssemos tentar falar com ele primeiro.
Mas Deeqa conhecia o homem. Ele não era razoável. —Falar com ele é inútil —disse ela—. Ele é um verdadeiro crente. Mas a Sagal tem razão. Fugir não é uma solução. Ela será uma pária, e a sua filha crescerá na pobreza e na vergonha.
Estavam num impasse. O seu dinheiro dava-lhes poder, mas como exercê-lo? De que servia um escudo se o homem que te atacava se recusava a reconhecer a sua autoridade?
Foi então que Deeqa teve outro rasgo de brilhantismo estratégico, uma ideia nascida do seu profundo conhecimento dos pontos de pressão da sua comunidade.
—Não somos nós que o podemos parar —disse ela—. Mas sabemos quem pode. —Ela olhou em volta da sala para as outras mulheres—. Os homens não nos ouvem. Mas eles ouvirão um homem que passou pelo fogo. Há apenas uma pessoa que pode intervir.
Na manhã seguinte, Deeqa fez algo que nunca sonhara fazer um ano antes. Foi a casa de Farah.
Encontrou-o sentado lá fora, a observar a sua filha Sulekha, agora uma rapariga magra mas saudável, a perseguir uma bola. Ele viu Deeqa a aproximar-se e levantou-se, o seu rosto uma mistura de vergonha e respeito.
Deeqa não perdeu tempo com formalidades. Contou-lhe a história de Sagal e da sua filha Hibaaq. Contou-lhe as ameaças do marido, o corte iminente.
—Este homem, ele respeita-te, Farah —disse Deeqa, a sua voz calma e direta—. Ele seguia-te quando eras o líder do antigo caminho. Ele vai ouvir-te agora.
Farah abanou a cabeça, um olhar de profundo cansaço no seu rosto. —Eu sou um pária, Deeqa. Já não tenho autoridade. Os Radicais chamam-me traidor.
—Tu não és um pária —contrapôs Deeqa, o seu olhar inabalável—. És uma testemunha. A tua história é a única coisa que pode romper a sua certeza. Tens de falar com ele. Não como um ancião, não como um líder. Como um pai. Um pai que quase perdeu a sua filha para esta... esta loucura.
Ela fez uma pausa, deixando as suas palavras assentarem. —Esta é a tua primeira petição. Do Fundo de Apoio Comunitário. Não estamos a pedir-te para liderar um movimento. Estamos a pedir-te para salvar uma menina. Vais fazê-lo?
Farah olhou para a sua própria filha, a brincar alegremente ao sol, o seu riso um som que ele quase nunca mais ouvira. Olhou para Deeqa, uma mulher que outrora desprezara, agora de pé diante dele como uma líder, a oferecer-lhe uma oportunidade de um tipo diferente de honra.
—Sim —disse ele, a sua voz embargada pela emoção—. Eu farei.
Secção 30.1: Poder, Autoridade e Influência
Este capítulo disseca as diferentes formas de poder em jogo na comunidade e demonstra como o Gabinete da Cozinha começa a dominar a arte da influência.
1. Autoridade Formal (Os Anciãos):
Os anciãos Radicais possuem autoridade formal e tradicional. O seu poder deriva da sua posição, da sua idade e da história da comunidade. No entanto, a sua autoridade mostrou-se frágil. Baseia-se na obediência inquestionável e, quando esta é desafiada (por Ahmed) ou minada por uma falha moral (a história de Farah), prova não ter uma resposta eficaz para além da raiva impotente.
2. Poder Económico (O Fundo):
O Gabinete da Cozinha detém agora o poder económico. O primeiro instinto de Sagal é apelar a este poder: "Podem ajudar-me a fugir?" Este é um uso clássico do dinheiro — para comprar uma fuga de um problema. No entanto, o comité, liderado por Deeqa, rapidamente percebe as limitações deste poder. Usá-lo direta e agressivamente (financiando uma fuga) seria visto como uma declaração de guerra e poderia sair pela culatra, levando a uma escalada violenta. O poder económico puro, aprendem elas, pode ser um instrumento rude e perigoso.
3. Autoridade Moral / Influência (Farah):
Esta é a forma de poder mais nuanceda e, neste contexto, a mais eficaz. Farah já não tem qualquer autoridade formal; os Radicais despojaram-no dela. Ele não tem poder económico. O que ele possui é uma autoridade moral profunda e inatacável.
O seu Poder é Experiencial: Ele não está a argumentar a partir da teoria; está a falar a partir do trauma. A sua história é uma "fonte primária" de verdade que não pode ser descartada.
O seu Poder não é Ameaçador: Porque ele é um homem destroçado, não é visto como uma ameaça. Ele não está a tentar liderar um movimento ou a tomar o poder. É simplesmente uma "testemunha". Isto torna-o muito mais persuasivo do que um ativista agressivo seria. Outros homens podem ouvi-lo sem sentirem que o seu próprio estatuto está a ser desafiado.
A Maturidade Estratégica de Deeqa:
A decisão de Deeqa de abordar Farah demonstra a sua evolução de uma pensadora tática para uma verdadeira estratega.
Ela reconhece os limites do seu próprio poder. Sabe que, como mulher, não tem legitimidade para confrontar diretamente o marido Radical.
Ela compreende os diferentes tipos de poder e sabe qual ferramenta usar para cada trabalho. Percebe que este não é um problema que o dinheiro possa resolver; é um problema que apenas a autoridade moral pode resolver.
Ela "deputa" Farah de forma magistral. Ao enquadrar o seu pedido como a "primeira petição" do fundo, ela dá-lhe um papel formal e respeitado. Ela não está apenas a pedir um favor; está a convidá-lo a tornar-se um agente da sua nova organização liderada por mulheres. Este é um ato brilhante de cooptação de um antigo inimigo e de lhe dar um caminho para um novo e mais significativo tipo de honra.
O capítulo mostra que os movimentos mais eficazes não são aqueles que simplesmente adquirem uma forma de poder (como o dinheiro), mas aqueles que aprendem a alavancar estrategicamente múltiplas formas de poder — formal, económico e moral — para alcançar os seus objetivos.